# Capítulo 34: A Carta de Henry
## Eu. Cidade de Cristal e o Ca?ador
A jornada para o País dos Poliedros come?ava com um desvio para a Cidade de Cristal, a última fronteira do Continente Vermelho.
Orfeu estava sentado, comendo um lanche, enquanto lia um livro com capa cinza e páginas secas e antigas. O livro, um compêndio de filosofias esquecidas, recebeu anota??es sutis em suas margens. Um leve sorriso enigmático pairava em seus lábios. Ele estava na beira de uma ponte de trinta metros, por baixo da qual uma forte corrente negra de água fluía.
Ao seu lado, pessoas com roupas largas e neutras caminhavam, mantendo uma distancia respeitosa. Orfeu, apesar de usar uma capa marrom folgada, n?o tentou esconder sua natureza. Seus olhos vermelhos, cansados de uma longa viagem, e sua postura firme gritavam "Hunter." Ele demonstrava orgulhosamente quem era.
Crystal City era um contraste gritante com o resto do continente. O ch?o era pavimentado com pedras de cristal, refletindo a luz etéreamente, em vez das habituais pedras pretas. A arquitetura era rústica, com casas de madeira lindamente trabalhadas e cerejeiras em flor que floresciam por toda parte. No entanto, o reflexo nas pedras de cristal era de um sutil vermelho sangue, um lembrete constante da domina??o. No topo de uma torre de pedra de quinze metros, estava gravado o símbolo do Sol, o emblema de Ygon. Todos sabiam o que isso significava: ali, Ygon governava. Onde o Sol estava, ele estaria.
Orfeu pulou no ch?o e caminhou em dire??o ao centro. Trocando informa??es com os comerciantes enquanto comprava e comia uma ma??, ele notou a abundancia de carne seca, um ótimo suprimento para a jornada.
Seu destino era um hotel, onde ele havia feito amizade com o dono, Henry.
## II. A Confiss?o de Henrique
Henry era um homem negro de olhos vermelhos, forte, baixo, mas com uma amabilidade cansada. Sua voz rouca, que Orfeu sempre achava engra?ada, era a única coisa que o impedia de ser completamente esmagado pelo peso da vida. Orfeu o chamou de "an?o", e Henrique, embora fingisse raiva, deixou passar.
Durante as duas semanas que Orpheus ficou no hotel, Henry nunca se sentira t?o seguro. Aos cinquenta anos, ele n?o suportava mais ser chantageado pelo exército de Ygon e pelos ca?adores que dormiam e comiam de gra?a em troca de lealdade ao tirano. O hotel havia se tornado um ponto de encontro para a escória do continente, a fronteira onde o pior e o melhor se misturavam. Henry estava exausto, mas a chegada de Orfeu mudou seu paradigma.
Ele se lembrou daquele dia, três semanas atrás.
Henry estava escovando os dentes no por?o, sua nova casa, já que todos os c?modos, inclusive o seu, haviam sido tomados por soldados e ca?adores. Ele lavou o rosto, cansado n?o de dormir mal, mas de existir.
Sua filha, Girassol (Girassol), apareceu. Ela usava um lindo vestido amarelo, era pequena, tinha um metro e meio de altura, cabelos dourados que chegavam aos joelhos e olhos da cor das flores de cerejeira. Sua pele marrom suave irradiava uma beleza que mudava o ambiente ao seu redor, e isso preocupava profundamente Henry.
— Pai, os soldados e ca?adores querem que a comida e as bebidas estejam prontas em dez minutos — disse Girassol. Ela sabia que a notícia irritaria seu pai, mas era melhor ser direta para evitar algo pior.
Henry suspirou, apenas balan?ando a cabe?a.
— Foi um dia de merda, Orfeu — Henry desabafou, em sua carta. — Foi terrível. Minha filha cantava para entreter aqueles porcos, enquanto eles comiam e bebiam como animais. Muitos diziam que Ygon mudaria o continente. Ele mudou, sim. Ele é apenas um novo ditador para um povo miserável.
Henry continuou, a caneta riscando o papel.
— Sabe, embora tenha sido difícil, eu trabalhei. O que importava era mais um dia de vida. Mas até onde posso chamar isso de vida quando vejo minha filha sendo tratada como uma prostituta, humilhada por porcos imundos? Eu poderia ter feito algo, mas o medo de morrer e de ela ser abusada por aqueles lixo foi pior. Temia que minha filha acordasse no dia seguinte e eu estivesse morto.
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Girassol cantava enquanto Henrique servia cem soldados e dez ca?adores. O exército lhe dava dinheiro, mas ele n?o se importava com o dinheiro. Ele só queria ir embora, mas eles n?o deixavam. Ele até ofereceu o hotel, mas...
— O capit?o militar, um rude, riu na minha cara enquanto bebia com aqueles macacos. Ele disse que a divers?o era ver minha filha cantar. Eu estava a um passo da loucura. Eu sabia o que ia acontecer, e o momento estava próximo.
— Foi quando você chegou. Sedento, cansado e procurando um lugar para dormir. Aqueles olhos vermelhos, cansados de uma longa viagem. Achei que você fosse um sonhador viajando em busca de algumas moedas. Você pediu um servi?o e um telhado. Fiquei sobrecarregado, tinha dinheiro demais, mas me sentia enojado com esse dinheiro. Eu queria me livrar de tudo, ent?o te contratei. Você foi minha fuga. Deixei todo o trabalho pesado para você.
Orfeu limpava as mesas, servia comida e bebida, lavava as roupas dos militares e dos ca?adores. Henry ficou planejando a fuga por dias, pensando em como levar sua filha.
— Depois de duas semanas, você ficou muito próximo de Girassol. Você sorriu, ela sorriu de volta. Você contava piadas, e ela ria, mesmo que fossem terríveis. Vi que minha filha sentiu uma emo??o que, pela primeira vez, me assustou: **esperan?a**. Essa esperan?a me aterrorizava, Orfeu.
— O tempo passou, e sua amizade cresceu. Os militares ficaram com inveja, come?aram a te humilhar, pisar em você, cuspir em você e te tratar mal. Eu estava t?o feliz, Orfeu! Ver eles focados em você e deixando minha filha e eu de lado foi emocionante. Eu me sentia livre. Mas as noites pesavam nos meus pensamentos. Eu sou como eles. Gostei de te ver sofrer. Eu vi você sendo destruída e humilhada, e torci por isso. O que me dá o direito de ser diferente? O que me dá o direito de ser livre se eu te prendi na mesma jaula em que estou?
— Eu sou um monstro, Orfeu, por sentir uma falsa esperan?a. E, com o tempo, tive a mesma sensa??o que minha filha que tanto temia: eu tinha esperan?a. Me apeguei a você. Eu gostava de você. Você é um bom menino, fala muito, é alegre, sabe como fazer as pessoas felizes ao seu redor. Nem sei de onde você veio, mas tenho certeza de que sua família cuidou muito bem de você.
## III. O Pre?o da Liberdade
Henry tomou sua decis?o na noite em que falou com Girassol.
— Ela me questionou qual era meu medo. Eu n?o sabia como responder. Eu tinha medo que ela morresse, ent?o contei para ela. Mas ela n?o acreditava. Ela riu ironicamente. Ent?o, dei um tapa no rosto dela. Foi o pior erro, Orfeu. Nunca me senti t?o suja.
Girassol disse algo que Henry jamais esqueceria:
> "Você n?o tem medo de me perder, porque você já me perdeu. Minha vida pertence ao exército, n?o a você, pai."
— Naquele momento, percebi que tinha cometido um erro. Fiz um acordo com o exército. Menti para mim mesma dizendo que n?o tinha escolha, mas tinha! O dinheiro era muito alto. Eu me aposentaria em seis meses de trabalho com esse dinheiro. Menti dizendo que os soldados me for?aram, mas n?o fizeram. N?o no come?o.
Henrique foi até Orfeu e o mandou embora.
— N?o vou trancar outro pássaro nessa gaiola.
Orfeu olhou para ele, lendo sua alma.
— Eu sei, Henry, como é ser escravo. Tudo bem. Meu mestre sempre sorria quando eu estava com medo.
Orfeu sorriu para Henrique. Era um sorriso que trazia paz, emanava uma energia quente que lhe dava vontade de viver. Mas Henry havia aceitado seu destino.
— Vá embora, Orfeu, e leve minha filha, por favor. é só isso que pe?o. A fronteira fica a dez quil?metros daqui. Vou te dar dinheiro para fazer esse trabalho e o mapa.
Quando Orfeu ouviu as palavras **emprego** e **contrato**, sua express?o mudou. Ele levantou a m?o para Henry com um olhar sério. Seus olhos eram os de um cachorro olhando para um peda?o de carne.
Henry apertou sua m?o, finalizando o contrato.
Orfeu saiu do hotel naquela noite sem dizer nada. Ele desapareceu como o vento. Era estranho, Henry nunca tinha sentido isso antes. Era assustador.
*Quem é ele? O que ele é?*
Na manh? seguinte, Henry acordou para escovar os dentes. Orfeu n?o estava mais lá. Ele dormia no ch?o de madeira com alguns trapos. Sua filha já tinha se levantado. Henry tentou acreditar que Orfeu e ela haviam fugido. Era tudo o que ele pedia a Deus.
Ele lavou o rosto. Ele sabia que aquele era o dia de sua morte, mas seu rosto irradiava vida. Ele estava livre. Ele estava feliz.
Ele subiu as escadas e saiu do por?o.
As mesas, cadeiras, balc?o, comida, bebidas... tudo foi servido.
Os soldados estavam mortos. Ca?adores mortos. Sentados, deitados em sua própria po?a de sangue. Henry viu um mar de sangue e morte.
Ele correu pelo hotel procurando a filha, desesperado.
Ent?o, saiu correndo do hotel, procurando ajuda e informa??es sobre o que havia acontecido. Ele viu uma cidade banhada de sangue e morte.
Todos os militares e ca?adores estavam mortos. As pessoas caminhavam pela cidade como se tudo fosse normal, pisando sobre os corpos. Eles gritaram **Liberdade**, beberam, dan?aram e riram.
E, correndo em sua dire??o, estava Girassol. Feliz, sorrindo.
— Foi tudo que pedi, Orfeu. Era tudo o que eu queria.
Henry escreveu, com a voz embargada pela memória:
> Eu sei que foi você. Eu sei que você n?o pediu mais nada. Eu te devo minha vida, devo tudo, e um dia pagarei, n?o importa onde você esteja. A popula??o de Crystal estará com você. Deus aben?oe seu mestre. Deus te aben?oe.
Girassol disse que n?o sabia o que tinha acontecido, que acordou e tudo mudou. A popula??o também. Mas Henry sabia. E ele faria quest?o de deixar claro quem os havia salvado.
***
*Fim do Capítulo 33*

