CAPíTULO 3: O Port?o da Montanha
O Caminho da Serpente
A estrada da montanha n?o apenas subia; parecia se enrolar em torno do pico como um la?o que se aperta, com a inten??o de estrangular qualquer um que fosse corajoso o suficiente para escalá-la.
Kairo apertou o volante com tanta for?a que seus nós dos dedos ficaram brancos como fantasmas, suas palmas úmidas de suor apesar da temperatura despencar. O motor da van gemeu — um apelo gutural e metálico por misericórdia — enquanto ele empurrava o veículo surrado para o ar rarefeito e sem oxigênio. Lá fora, o mundo havia se dissolvido em um pesadelo monocromático de névoa cinzenta e pinheiros esqueléticos. Essas árvores, despidas de agulhas por alguma praga química invisível, arranhavam as janelas como os dedos desesperados de uma civiliza??o soterrada.
O trov?o ribombava, mas era um som estranho. N?o vinha das nuvens carregadas e escuras; em vez disso, parecia vibrar desde as raízes da terra, um rugido tect?nico que sacudia o chassi da van. Relampagos brancos e violentos iluminavam o caminho irregular, transformando a floresta em uma série de instantaneos congelados e aterrorizantes. Dentro da cabine, o ar era sufocante, denso com o cheiro de café velho, óleo queimado e o aroma agudo e elétrico do medo puro e absoluto.
Medellín sentou-se no fundo, com a camera erguida como um escudo. A pequena luz vermelha de grava??o piscava ritmicamente — uma pulsa??o solitária e artificial na escurid?o opressiva.
“Terceiro dia da investiga??o”, ela sussurrou no microfone direcional. Sua voz tremia, mas havia uma firmeza inabalável sob o medo. “Estamos subindo um pico que foi apagado de todos os mapas modernos, deletado dos registros de GPS e esquecido pela cidade lá embaixo. Os moradores do Distrito Cinzento dizem que ninguém vive aqui há décadas. Dizem que a montanha é assombrada pelos fantasmas de uma era fracassada. Mas nós sabemos a verdade. Nós o vimos. Vimos o que ele fez no centro da cidade. Se ainda existe um deus em Eldvorn, ele n?o está nas catedrais. Ele vive nas nuvens.”
Níla olhou pela janela, sua respira??o emba?ando o vidro como um véu opaco. Ela desenhou um pequeno círculo desafiador na condensa??o. "Você acha que ele vai... nos atacar? Quer dizer, nós o vimos quebrar aqueles homens no beco como se fossem gravetos secos."
Mark n?o desviou o olhar do tablet, embora seus dedos tremessem tanto que ele precisou redefinir os ajustes do sensor duas vezes. “Se ele quisesse nos matar, Níla, n?o precisaria nos quebrar. De acordo com essas leituras de energia, ele poderia ter sobrecarregado nosso motor e nos jogado de um penhasco a quil?metros de distancia. Ele está nos deixando vir. Ele está abrindo a porta. E é isso que me aterroriza mais do que a for?a dele. Ele quer ser encontrado.”
O Port?o de Ferro
A van parou bruscamente, fazendo os ossos tremerem. Os faróis cortaram a neblina, revelando um port?o de ferro t?o imenso e imponente que parecia pertencer a um abismo medieval em vez de uma residência particular. O metal estava enferrujado, com uma tonalidade profunda de sangue seco, e uma antiga inscri??o em latim estava gravada em alto relevo na barra transversal irregular:
La mort est la porte d'entrée de la vie.
“A morte é a porta para a vida”, traduziu Saínt, com voz baixa e solene. Ele foi o primeiro a sair para o vento cortante. O frio o atingiu como um golpe físico, com cheiro de pedra molhada e algo metálico — algo como uma bateria vazando na chuva. Caminhou até o port?o e agarrou as grades, esperando o ferro frio. Em vez disso, recuou.
O metal estava anormalmente quente. Zumbindo com uma vibra??o de baixa frequência, ele penetrava diretamente nos ossos, causando dor de dente e vis?o turva.
"Trancado?" perguntou Kairo, debru?ando-se na janela, a voz quase inaudível por causa do vento.
“N?o está trancada”, disse Níla, seus olhos atentos localizando uma pequena entrada lateral envolta em uma hera espessa e de cor anormalmente escura. Ela saiu da van, suas botas rangendo sobre o cascalho tingido de violeta. “Convidada.”
Eles cruzaram a soleira, deixando para trás a seguran?a da van. O caminho até a mans?o era um cemitério de natureza morta. Rochas de obsidiana, afiadas como vidro de obsidiana, ladeavam uma passarela de mármore rachado. O silêncio ali era absoluto — n?o a ausência de som, mas um silêncio pesado e opressivo que parecia pressionar seus tímpanos. Era o silêncio de um predador prendendo a respira??o, esperando que a presa caísse na armadilha.
O Observatório dos Condenados
Dentro da mans?o, Charles O'Brien estava sentado em uma sala que era um choque desconcertante de épocas. Era um espa?o onde uma biblioteca vitoriana — repleta de tomos encadernados em couro e com cheiro de cera de abelha — encontrava a fria e precisa salarial de um centro de controle da NASA.
Dezenas de monitores piscavam contra as paredes de mogno, projetando um estrobo caótico de dados no rosto de Charles. Havia gráficos sísmicos rastreando o pulsar da montanha, análises químicas do resíduo violeta de Barstwar e mapas térmicos dos níveis inferiores de Eldvorn-B que pareciam veios de fogo. Cada linha de código que rolava na tela era um fragmento de um pesadelo que ele tentava resolver há nove anos.
Um toque de sino ecoou pelo teto abobadado e banhado em sombras. Um alerta de proximidade.
Charles n?o se mexeu. Permaneceu completamente imóvel, de olhos fechados. Com seus sentidos agu?ados — um "dom" do laboratório — ele n?o apenas os ouvia; ele os sentia. Sentia a perturba??o magnética de cinco cora??es jovens e frenéticos batendo em seu hall de entrada. Saboreava a curiosidade deles no ar, sentia a estática do terror e reconhecia uma faísca de esperan?a que lhe parecia quase fisicamente dolorosa de suportar.
You could be reading stolen content. Head to Royal Road for the genuine story.
Ele se levantou, suas juntas estalando com um clique mecanico. Caminhou até uma parede lateral e pressionou uma reentrancia oculta na madeira. Um painel deslizou, revelando uma galeria de fotografias antigas e impressas.
No centro, um homem sorria em frente a um extenso complexo de laboratórios. O homem era idêntico a Charles — o mesmo queixo, os mesmos olhos penetrantes —, mas a foto estava amarelada e datada de 1960.
Charles tocou o vidro sobre a foto. Ao fazê-lo, o regulador metálico embutido em seu bra?o direito sibilou, expelindo uma baforada de vapor azul pressurizado para resfriar o núcleo incandescente sob sua pele.
“Você n?o deveria ter vindo”, sussurrou ele para o quarto vazio e ecoante. Sua voz era rouca, n?o acostumada ao peso das palavras. “Eu n?o sou o herói que você procura. Eu sou o homem que deixou o fogo se apagar.”
A Arquitetura da Tecnologia Impossível
A mans?o pairava sobre os adolescentes como uma besta predadora esculpida na rocha da montanha. Era um monólito gótico, coberto por musgo espesso e trepadeiras parasitas que pareciam tentar ativamente puxar a estrutura de volta para a terra. A enorme porta da frente, refor?ada com a?o, estava entreaberta — uma boca escura e escancarada que oferecia tanto refúgio quanto amea?a.
“Isso é insano”, sussurrou Mark, sua lanterna tática cortando a penumbra opressiva do hall de entrada. Ele apontou o feixe de luz para o teto, que se elevava em uma cúpula impossível. “Olhem os pontos de tens?o. Essa arquitetura n?o deveria suportar tanto peso. Há um zumbido tecnológico sob o assoalho… Estou falando de tecnologia de ponta, fus?o a frio. Isso n?o é uma casa; é uma usina elétrica disfar?ada.”
“é real”, sussurrou Medellín, enquanto sua camera percorria os retratos empoeirados e arregalados que revestiam as paredes. Os olhos dos ancestrais de O'Brien pareciam segui-los, julgando sua intrus?o. “Toda teoria da conspira??o, toda história de fantasmas… tudo é real.”
Impulsionados por suas próprias obsess?es, o grupo come?ou a se fragmentar.
Saínt e Níla dirigiram-se para a ala leste, atraídos por um aroma que lhes lembrava uma tempestade. Kairo e Medellín come?aram a subir a grande escadaria em espiral, seus passos ecoando como tiros na quietude antinatural do sal?o.
Mark, no entanto, foi atraído por uma porta pesada nas sombras sob a escada. Ele a empurrou e encontrou um arquivo escondido. Fileiras de livros-raz?o se estendiam na escurid?o. Ele puxou um livro pesado, encadernado em couro, de uma prateleira, e a poeira tossiu em seu rosto. Sua lanterna iluminou o título manuscrito na lombada:
REGISTRO DE EXPERIMENTO: O PROTOCOLO DE BARSTWAR.
Seu cora??o afundou. Ele folheou as páginas, os olhos arregalados por trás dos óculos. Havia esbo?os anat?micos de um homem chamado Gregor — antes da transforma??o — e diagramas horripilantes mostrando minério violeta sendo fundido diretamente na medula óssea humana.
“Charles…” Mark respirou fundo, o ar escapando de seus pulm?es em uma lufada fria. “Você n?o foi apenas uma vítima do acidente. Você foi o catalisador. Você foi quem estabilizou a rea??o.”
O aparecimento do fantasma
No sal?o central, a temperatura despencou repentinamente. O ar ficou t?o frio que a respira??o deles n?o apenas se transformava em névoa; congelava em minúsculos cristais. As pesadas portas de carvalho da entrada se fecharam com um estrondo que fez tremer os alicerces da montanha, ecoando pela casa como um toque de santifica??o.
“é um fantasma?”, brincou Medellín, mas sua voz falhou, o humor n?o conseguindo disfar?ar o puro terror em seus olhos.
“Se for, eu a protegerei”, respondeu Kairo, colocando-se à sua frente. Suas m?os estavam cerradas em punhos, seu corpo tremia, mas ele n?o recuou um centímetro sequer.
Um baque metálico e pesado ecoou das sombras da varanda acima.
Clang. Clang. Clang.
O som de metal batendo em pedra. Eles congelaram, cinco feixes de lanterna convergindo na escurid?o no topo da escada. As sombras pareciam respirar, coalescer em uma forma humana.
Charles O'Brien entrou num raio de luar que filtrava por um vitral representando um anjo caído. Estava sem máscara. Seu rosto era pálido, marcado pelas linhas profundas e assombrosas de um homem que vira o sol morrer e vivera para contar a história. Seus olhos n?o pareciam humanos na penumbra; brilhavam com um tênue tom azul-celeste.
“Posso perguntar o que você está fazendo na minha casa?”, perguntou ele com uma voz grave e melodiosa, sem qualquer malícia, apenas um profundo e antigo cansa?o que parecia pesar no próprio ar.
Níla foi a primeira a reunir coragem. Deu um passo à frente, saindo do círculo de amigas, e olhou-o nos olhos. "Você é Charles O'Brien?
Charles olhou para ela, seu olhar demorando-se na faísca de desafio em seus olhos — uma faísca que ele reconheceu de um espelho no qual n?o se olhava há anos. Ele balan?ou a cabe?a lentamente, um sorriso sombrio surgindo em seus lábios.
“Aquele homem morreu no incêndio há nove anos”, disse Charles em voz baixa. “Agora só resta uma dívida. Uma máquina construída para pagar por um pecado imperdoável.”
“Nós vimos você salvar aquele ?nibus!” gritou Kairo, com a voz embargada. “A cidade te chama de terrorista! Eles acham que você é um monstro! Mas nós vimos a verdade!”
Charles come?ou a descer as escadas. Seus movimentos eram fluidos, inquietantemente silenciosos, como uma sombra deslizando sobre o mármore. Ele parou exatamente a um metro e meio delas. A luz azul do seu regulador de pulso brilhava na escurid?o, um batimento cardíaco de néon que iluminava as cicatrizes em seu pesco?o.
“A verdade é um fardo pesado, rapaz”, disse Charles, olhando para cada um deles, lendo suas histórias em seus rostos. “Vocês vieram aqui em busca de um herói para salvar a cidade. Mas tudo o que encontrar?o aqui é o arquiteto do fim. Eu sou a raz?o pela qual Barstwar está desperta. Eu sou a raz?o pela qual o seu mundo está gritando.”
Ele suspirou, o som de um homem finalmente revelando um segredo que guardara nas sombras por tempo demais.
“Entrem”, disse ele, gesticulando com sua m?o mecanica em dire??o ao seu escritório. “Se quiserem saber por que a montanha respira, eu lhes mostrarei. Se quiserem saber o que está por vir para Eldvorn eu lhes darei os mapas. Mas saibam disto: uma vez que virem o cora??o da máquina, n?o haverá volta. Vocês deixar?o suas infancias neste corredor.”
Ao se virarem para segui-lo até o cora??o da mans?o, nenhum deles notou os monitores no arquivo do por?o. As telas, antes azuis e brancas, de repente piscaram em um violeta violento e raivoso.
Nas profundezas da terra, sob os reatores de fus?o e os pisos de mármore, algo ouvira a voz de Charles. Reconhecera a vibra??o. Reconhecera seu carcereiro.
E estava com fome.
Obrigado pela leitura.
Se este capítulo lhe deixou com dúvidas, desconforto ou curiosidade, adoraria saber sua opini?o. Qualquer feedback sobre ritmo, atmosfera ou impress?es sobre os personagens é bem-vindo.
Seus pensamentos ajudam a moldar o que vem a seguir.

