home

search

Capítulo 5 - O pacote ensanguentado

  A primeira coisa que atingiu Nwyn foi o som. N?o um ruído qualquer, mas o eco estridente da voz da mulher, cortando o ar como uma lamina afiada:

  — SAIA DAQUI!

  O grito pareceu rasgar sua mente, ainda confusa e pesada. O mundo ao seu redor girava, os sentidos tardavam a responder. Ele piscou algumas vezes, mas a figura da atendente continuava ali, os olhos arregalados, as m?os tremendo ao apontar para a porta.

  — FORA! FORA DA MINHA LOJA!

  Algo passou zunindo ao lado de seu rosto. As moedas. Elas caíram no ch?o de madeira com pequenos tilintares, rolando antes de se espalharem na poeira. A mulher n?o as queria. N?o queria nada dele.

  Nwyn tentou falar, mas sua garganta estava seca. O corpo estava fraco, cada músculo pesado como se estivesse preso a correntes invisíveis. Cambaleou, e suas pernas mal sustentaram seu próprio peso, os dedos largaram o remédio que se estilha?ou e espalhou pela madeira. Agarrando-se ao balc?o, tentou se equilibrar, mas a mulher deu um passo para trás, como se ele fosse algo... impuro.

  Seus olhos n?o mentiam. Ela estava apavorada.

  Ele n?o entendia. O que tinha acontecido?

  A cabe?a latejava. Um enjoo estranho crescia dentro de si, junto com uma press?o sufocante no peito. Ele tentou reunir for?as para perguntar, para exigir uma resposta, mas antes que pudesse, a mulher pegou uma vassoura e avan?ou em sua dire??o, brandindo-a como uma lan?a improvisada.

  — EU DISSE PARA SAIR!

  Sem escolha, Nwyn trope?ou para fora da loja. O ar da rua bateu em seu rosto como uma bofetada, mas n?o foi o alívio esperado. O barulho da cidade parecia abafado, distante, como se estivesse submerso em água. Ele piscou, tentando focar. O ch?o de pedra oscilava sob seus pés.

  As pessoas passavam apressadas, mas ninguém olhava para ele. Ou melhor... olhavam e desviavam o olhar, ignorando.

  Ele tentou andar, mas seu corpo oscilou para um lado. Se n?o fosse pela parede áspera do prédio ao lado, teria caído de joelhos. O suor frio escorria por sua nuca. O peito subia e descia rapidamente.

  Preciso de ajuda.

  Tentou erguer a m?o para chamar alguém. Uma mulher passou, carregando um cesto. Ele murmurou algo, qualquer coisa, mas ela desviou o olhar e apertou o passo. Um homem de túnica escura caminhava em sua dire??o, mas quando Nwyn deu um passo tr?pego, ele desviou como se evitasse um c?o sarnento.

  O que há de errado comigo?

  Cada segundo que passava aumentava a confus?o. As imagens da vis?o ainda dan?avam em sua mente.

  Ele precisava sair dali. Agora.

  If you discover this tale on Amazon, be aware that it has been unlawfully taken from Royal Road. Please report it.

  Seus pés se moveram por instinto, levando-o para onde os becos se entrela?avam como um labirinto. Os gritos do mercado ficaram distantes. O barulho dos passos da multid?o, abafado.

  Os becos se tornavam um labirinto interminável de sombras e paredes úmidas, o cheiro de podrid?o impregnado no ar. O mundo ao redor girava, e cada passo de Nwyn era um esfor?o desesperado para se manter de pé. Seu corpo estava fraco, a tontura persistia, mas ele continuava. Precisava sair dali.

  Foi quando sentiu o impacto.

  Algo sólido e pesado colidiu contra ele, arrancando-o de seu rumo. Um choque de músculos e ossos, um grunhido surpreso — e ent?o, o ch?o de pedra. O baque ressoou em seu corpo como uma explos?o surda, tirando-lhe o ar. O frio da pedra suja penetrou sua pele, enquanto a poeira e o fedor da rua grudavam nele.

  Acima dele, uma silhueta se impunha.

  — Ora, ora... Olha só o que temos aqui.

  A voz era áspera, carregada de desprezo e um divertimento cruel. O homem era alto, ombros largos, a pele marcada por cicatrizes e sujeira. Vestia trapos que um dia foram roupas decentes, agora esgar?ados e imundos. Seus olhos escuros analisavam Nwyn como um predador avaliando uma presa.

  — Tá com pressa pra onde, hein, fedelho?

  Nwyn tentou se mover, mas o peso da fraqueza e da tontura o mantinha imóvel. O homem abaixou-se de repente, os dedos sujos agarrando seu colarinho com for?a.

  — Tem cara de quem tá perdido... E perdido sempre carrega alguma coisa de valor.

  Os dedos calejados come?aram a vasculhar seus bolsos. Nwyn se debateu, tentando afastá-lo, mas suas for?as eram insignificantes. E ent?o, ele tocou algo diferente.

  O pacote.

  — Isso é tudo? — rosnou, irritado. — Eu esperava mais.

  O embrulho manchado de sangue antigo, escondido entre as camadas de tecido do casaco.

  Os olhos do homem brilharam com um interesse novo. Ele puxou o pacote com brutalidade, rasgando parte da costura do casaco de Nwyn. Seus dedos apressados desfizeram o embrulho, e o que encontrou fez seu sorriso se alargar.

  Dentro, um fragmento de máscara vermelha.

  A pe?a era irregular, como se tivesse sido estilha?ada de um todo maior. Sua superfície era gasta, mas ainda brilhava com um tom profundo de vermelho, como sangue coagulado sobre porcelana. Mesmo ali, na escurid?o do beco, ela parecia absorver a pouca luz ao redor.

  — Mas o que diabos é isso...? — murmurou o homem, girando o fragmento entre os dedos.

  Ele n?o sabia o que era, mas via valor.

  E isso bastava.

  — Acho que arranjei meu lucro hoje.

  Algo dentro de Nwyn estourou ao ver ele jogar o pano ensanguentando no ch?o.

  Ele se moveu antes que seu corpo permitisse. Com um grito rouco, cambaleante, avan?ou.

  Seu punho fechado, desgovernado, disparou na dire??o do homem. O golpe n?o foi forte, n?o foi nada, mas carregava toda a raiva, o medo e o desespero que pulsavam dentro dele.

  Acertou o homem no peito, mas foi como socar uma parede, o bandido nem se mexeu. O silêncio durou um segundo. Apenas um, e ent?o, o mundo explodiu em dor.

  O punho do homem encontrou seu est?mago com a for?a de um aríete. O ar fugiu de seus pulm?es, seu corpo se dobrou involuntariamente, a bile subiu em sua garganta. Antes que pudesse se recompor, um segundo golpe atingiu seu rosto.

  Seu cranio chicoteou para trás, e o gosto ferroso do sangue se espalhou por sua boca. O ch?o sumiu. Ou foi ele quem caiu?

  A vis?o ficou turva. O beco girava ao redor, as sombras se misturavam, se dobravam, se fechavam sobre ele

  E os golpes continuaram.

  Chutes, socos, m?os calejadas rasgando sua pele, esmagando seus ossos.

  Tudo desmoronava.

  A máscara... A máscara...

  E ent?o, o escuro.

Recommended Popular Novels