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Interlúdio: Panteão do Aço

  A luz n?o sobe; escorre.

  O cristal no centro do Pante?o pulsa numa cadência que tem o compasso de quem conta os segundos de um velho relógio. Cadeiras vazias bordeiam a mesa circular como dentes de um mecanismo. Há uma rotina naquele ar: vozes que se entrecortam, comentários técnicos, a conversa de quem se reúne para fazer o mundo engatar outro dia.

  


  — Press?o diafragma está instável

  Diz Gazp, como se falasse do clima.

  


  — Atmosfera local do planeta 712991 precisa de ajuste; andei sentindo microbolhas em áreas de alto fluxo.

  


  — Resolve-se com um sopro

  responde o "Rei Sem Sua Coroa", distraído, ajeitando a ponta do espelho que repousa sobre o joelho.

  Ou com uma réplica.

  Vozes pequenas, verifica??es de costume. Regulus escuta tudo sem mover o olhar; seus dedos desenham linhas imaginárias que curvam o ch?o sob a mesa por centímetros, só para lembrar que ele está ali. O Bispo comenta algo sobre crentes que vacilaram; Selene-Ferrum fala em tom calmo sobre fim de ciclo e retomada. Helior, sentado um pouco afastado, n?o precisa falar alto: tudo o que diz parece cair no ar como senten?a registrada.

  Quando chega a vez de Asbak, a conversa muda de temperatura, n?o na fala, mas no silêncio que lhe abre caminho. Ele n?o sorri. N?o precisa. Fala como quem mostra um protótipo.

  — "O hospedeiro avan?ou"

  Diz.

  — "Estrutura de termocondu??o ficou estável num limiar que eu n?o tinha expectativa de manter. Consegui induzir uma rea??o parcial sem romper o núcleo. Progresso."

  Há um leve ruído de aprova??o mecanica, n?o alheia, apenas prática. Grudius capta os detalhes como quem observa cola secando na superfície certa; Mordren murmura números; Varkhel franz e os ombros, sempre pronto para consertar o que for preciso.

  Joker ri, do tipo que n?o pede aten??o, um som curto, cínico.

  


  — Nomeou o brinquedo?

  Pergunta, quase casual.

  


  — Como chama o seu brinquedo, Senhor Termo?

  Asbak solta o nome t?o leve quanto a coisa é pesada.

  — "Shade Daemon entre os espíritos. Ribeiro entre os mortais."

  A mesa cessa de respirar por dois batimentos. N?o é choque teatral; é um aquietar de máquinas antigas que reconhecem um novo elemento na equa??o.

  Joker ri de novo, dessa vez sem gra?a.

  


  — Shade?

  Repete, enrolando a sílaba.

  


  — Hm. Interessante. Já ouvi falar. O rosto dele... Saiu num circuito de torneios de éter

  This book was originally published on Royal Road. Check it out there for the real experience.

  — virou um ruído bom nas apostas. Venceu com… truque estranho. Riscado.

  Helior levanta a m?o como quem fecha uma anota??o. Sua voz n?o envelhece nem acelera; é o tom de quem afirma um fato.

  


  — Registrado: vitória no torneio de éter, sequência atípica de eventos.

  Ele pronuncia as palavras como quem sela um arquivo.

  


  — A habilidade demonstrada foge da distribui??o esperada. N?o é aleatoriedade pura, n?o é técnica padr?o de locomo??o.

  Nyxara, que tinha mantido as m?os unidas no colo como se segurasse um espa?o entre dois pensamentos, deixa o intervalo crescer por um instante. O silêncio entre as falas se alonga; é como se algo seguisse apenas para ver até onde o mundo demora a responder.

  


  — Desvio.

  Diz ela, sem emo??o.

  


  — Um entre que n?o se fecha.

  Mordren inclina a cabe?a. Seus dedos fazem contas que ninguém vê.

  


  — Tudo tem custo.

  Afirma.

  


  — Quando um nó de exce??o cresce, a balan?a pede pesagem.

  Varkhel encolhe os ombros. N?o há piedade no gesto; há cálculo.

  


  — Se n?o for contido, corroerá rotinas. Se corroer rotinas, o resto vem depois.

  Asbak, por um segundo, mostra um tra?o de coisa que se parece com olho humano de uma mulher, n?o culpa; explica??o.

  — "Eu precisava desse limiar. Sem um hospedeiro que suportasse a transi??o, minha progress?o era… truncada. N?o quis romper; só confirmei um estado que já existia no ensaio."

  O Rei Sem Sua Coroa imita, com a voz, o som de uma pe?a caindo no lugar.

  


  — Construa resultados. N?o pe?a permiss?es.

  Joker inclina a cabe?a, como quem guarda fala que pode virar piada.

  


  — Curioso

  Diz.

  


  — Chama de Shade, entra na roda dos mortais, ganha torneio, a plateia acha que é sorte e habilidade, a imprensa acha que é talento. Eu disse algo do tipo e alguém levou a sério. Resultado: ninguém consegue provar nada. Perfeito.

  Helior pega a anota??o que ainda paira invisível no ar e a carimba com uma senten?a menor e cortante que a?o.

  


  — Isso n?o foi normal.

  A frase é curta; n?o explica.

  


  — Erros precisam ser corrigidos.

  O cheiro n?o é de juízo. é de procedimento.

  Nyxara estala os dedos para fechar o intervalo que abriu; o ar volta a sua métrica. Selene-Ferrum inclina a face como quem dá o bra?o aconchegante a um ciclo que se fecha. Eidolon sorri com tristeza, possibilidades abortadas se retraem como sombras ao ver a luz do registro ser posta.

  Mordren come?a a enumerar probabilidades em voz baixa, números que caem como contas de abaco. Varkhel aponta, no concreto, o que precisa ser feito: remo??o quando o custo for maior que o benefício. Sem luto; sem espetáculo. Apenas um ajuste do mecanismo.

  Asbak volta a falar, mas a sua voz já n?o arrasta o mesmo tom de engenheiro orgulhoso.

  — "Eu n?o fiz para destruir. Fiz para subir. Mas há um limite de acomoda??o, eu vejo isso agora."

  Joker solta uma risada curta, e por trás dela, uma nota de descoberta: o palha?o percebe o que todos percebem, mas trata com ironia.

  


  — Entre nós.

  Diz ele, jogando a frase como se fosse apenas provoca??o

  


  — quem diria que a novidade viria vestida de torneio? Vida é uma comédia.

  ninguém ergue a m?o para discordar. Ninguém precisa. O cristal responde: pulsa mais rápido, um sinal que ninguém traduz em voz, apenas em tens?o. Helior leva a m?o ao peito, toca algo que é registro e decreto ao mesmo tempo.

  


  — Registrado

  Repete.

  


  — Notifica??o enviada aos ritos. O mecanismo iniciará se as variáveis n?o caírem.

  A reuni?o n?o se transforma em júri. Ela volta ao seu ritmo antigo de verifica??es e pequenas fraturas. As vozes retomam os relatórios como quem fecha portas. Mas há uma dobra nova no Pante?o: um nome que, agora, ocupa uma linha no registro com todas as letras pesadas.

  No caminho de saída, Joker mira o cristal, sorri e murmura, quase para si:

  


  — Eu n?o sei como, nem quando. Só sei que vai acontecer. E isso… é divertido.

  O riso fica na garganta do Pante?o; é um riso que n?o libera nada. Do outro lado da mesa, Nyxara estica o intervalo entre um piscar e outro, como quem mede o tempo que resta até a inevitabilidade se acomodar.

  Fora do Pante?o, em algum lugar entre ruínas e detritos, Ribeiro respira sem saber que carrega um processo que passou de experimento a nó de cálculo.

  E o Pante?o registra, espera e se prepara.

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