Um menino tremia por baixo de um poncho, os olhos grandes demais para o rosto sujo. Cheirava a leite azedo e rua, o mesmo cheiro dos becos de onde Shade viera para adentrar a esta cidade. Segurava com for?a um brinquedo de pano rasgado, e quando a viu, apertou-o contra o peito como se ela fosse um porto.
— "Mo?a...?"
a voz era um fio.
— "A mam?e sumiu... Você sabe onde ela tá...?"
Shade suspirou. A cidade era uma cordilheira de cheiros, fuma?a e luzes; acima de tudo, uma Lan?a atravessava o céu como uma ferida brilhante. Havia gente demais, humanos, furrys ((?╥?﹏?╥?)), golens, anjos... Raros empoleirados como estátuas vivas, dem?nios que surgiam como rumores, e monstros que, quando devoravam, viravam mercadoria.
Ela fechou o bico reaproveitado que achou a duas lixeiras atrás em sua m?o, e observou o menino com uma ternura discreta, quase impossível, mas real.
— Vem comigo. A gente procura.
Eles caminharam pelos corredores vivos das bancas: frutas luminescentes piscando, golens trocando pe?as como quem troca órg?os, crian?as com próteses improvisadas correndo entre becos. O menino falava baixo, quase confundindo sua voz com o ruído da cidade:
— "Mo?a… por que tem monstros?"
Shade hesitou. Havia mil vers?es. Mas só uma era sempre contada: a antiga.
Ela parou, ajeitou o menino no colo e falou como quem explica o motivo da chuva:
— No início, dois deuses brigaram. Triarcus, o da ordem: corpo, mente e alma. E Trianthropos, o do ciclo: vida, morte e renascimento. Eles lutaram tanto que deixaram uma ferida no mundo. A Marca Eterna.
— E ali, Trianthropos cravou uma lan?a... A Lan?a Suprema. Meio masmorra, meio promessa digamos assim...
O menino piscou devagar.
Shade continuou:
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— Depois disso, o Filho apareceu. Dizem que era mensageiro... Porém, o chamaram-no de impostor, expulsaram, e ele disse que um dia voltaria com espada, n?o com paz.
— E, enquanto esperavam, o mundo misturou sangue: humanos, monstros, híbridos. Aí, a partir do conhecimento dos monstros, descobriram de onde eles vem, as dungeons dentro da lan?a, quintilh?es delas. Cada fenda vira um ecossistema, cada monstro aprende, muda, renasce de sua forma. E a Lan?a… é onde tudo se dobra no mesmo lugar.
— "Ent?o é perigoso?"
ele sussurrou.
— Perigoso é pouco!
Shade sorriu de canto.
— Mas também dá ouro. E, às vezes, respostas. Se tiver sorte… até uma m?e... Hehe :P
A sorte veio rápido: a mulher correu entre a multid?o gritando o nome do filho. Ele disparou, abra?ando-a com tanta for?a que a perna dela quase cedeu. Shade apenas acenou quando a mulher tentou pagar, agradecer, insistir.
— Só cuida dele
disse, e se foi.
A gratifica??o apertou o peito dela por um instante, aquela coisa pequena e sem nome que tornava a cidade menos fria.
Shade voltou a caminhar com o olhar de quem ca?a curiosidades: gata, ladra, meticulosa. N?o furtava apenas por necessidade, mas por fascínio. A capital era um palimpsesto vivo. Cada bolso aberto era um mapa.
No mercado central:
— "Viu o anjo de asas negras?"
zombou um vendedor.
— "Virou moda pagar pra pecar por proximidade."
"Me dê seus bolsos cheios que devolvo um segredo"
murmurou ela, e em segundos uma carteira sumiu, uma chave mudou de dono, uma mini-tela apareceu na m?o dela com uma mensagem sem sentido.
Enquanto isso, a voz reapareceu dentro da sua mente, aquela que a seguia desde as ruas sem nome:
— "Vasculhar bolsos vai te dar paz, Shade Daemon?"
— Eu n?o aviso que quero paz. Quero sentido… e talvez jantar... E n?o me chame de Daemon...
— "E a Lan?a? Por que quer chegar lá?"
— Porque n?o tenho o luxo da fé
disse.
— E ali tem respostas que o mundo n?o quer dar.
A Lan?a dominava o horizonte como um osso cravado na carne do mundo. Perto dela, até as vozes da cidade baixavam. Filas de aventureiros se formavam para entrar nas primeiras fendas, uns famintos, outros desesperados. Alguns turistas pagavam para tocar pedras, sentir o hálito de criaturas.
Shade n?o tinha ilus?es. A Lan?a era risco. Mas risco ela entendia.
A primeira fenda abriu-se diante dela como um olho respirando. Metade metálica, metade organica. Dentro: árvores de plumas douradas, um lago que refletia constela??es inexistentes, e um cheiro metálico que grudou na garganta.
Ela entrou.
A Masmorra era um mundo que desobedecia espa?o: o ar dobrava cores, o ch?o mudava de humor, a gravidade cochichava segredos.
E ali estavam os monstros, as criaturas da Primeira Fenda que ela adentrou, cada uma viva, como lembran?a física.
Fim do capítulo 1...
Início de uma história.

