02/09/2020 13:00 - Oceano Atlantico
O som grave dos motores do avi?o vibrava nos meus ouvidos, misturado ao murmúrio abafado dos passageiros. Lá fora, o mar se estendia até o horizonte como um largo tapete azul infinito.
Faltavam poucos minutos para pousar em Monterrey.
Coloquei os fones e deixei a grava??o come?ar. A voz da Rebecca, t?o suave ecoou no meu ouvido:
" Caso de Rank 7. Objetivo: confirmar o envolvimento de Ernesto Moreno no desaparecimento das agentes Rachel e Kelly Windsor, desaparecidas há duas semanas durante uma investiga??o sobre o cartel mexicano Los Olvidados e sua conex?o com o tráfico infantil.
a um Informante local te aguardando no aeroporto.
Lembre-se, agente Baker: evite baixas civis. Em caso de emergência, acione o Selo Invertido."
A grava??o terminou com um breve chiado.
Suspirei. 'Evite baixas civis.' Sempre diziam isso, como se fosse simples.
Fechei os olhos por um instante, sentindo o balan?o leve da aeronave descendo.
Rachel e Kelly… lembrava bem delas. Boas agentes. Idealistas demais pra esse trabalho.
Se elas est?o mortas, eu precisava ao menos entender o porquê.
O alto-falante chiou:
"Senhores passageiros, iniciamos a descida para o Aeroporto Internacional de Monterrey. Por favor, mantenham os cintos afivelados."
A cidade come?ou a surgir abaixo das nuvens prédios baixos, avenidas cheias, e o sol mexicano cortando o céu com um brilho quase dourado.
Um contraste brutal depois da neblina de Londres.
ajustei o paletó e caminhei até o desembarque.
O calor me acertou assim que pisei fora da aeronave.
O ar seco, o som de vozes misturadas em espanhol e o cheiro de gasolina e poeira me lembraram que eu n?o estava mais em casa.
Entre a multid?o que se espalhava pelo aeroporto de Monterrey, tentei localizar alguém que destoasse do cenário , alguém que n?o estivesse ali apenas para embarcar ou buscar um parente, mas com um propósito. Homens de terno, turistas suados, m?es com crian?as chorando… todos pareciam normais demais. Nenhum olhar atento demais, nenhum gesto suspeito.
Suspirei e encostei-me em uma coluna próxima à área de desembarque. O alto-falante anunciou mais um voo, e o som das malas rodando pelo piso liso come?ou a me irritar. Já fazia quase duas horas e nada. Nenhum sinal do informante.
Abri o celular e disquei o número de Rebecca. Depois de alguns toques, sua voz surgiu.
"Al?."
"Oi, Rebecca. " esfreguei a têmpora, tentando conter o cansa?o. " O informante ainda n?o apareceu."
"Como assim? " o tom dela mudou de imediato. " Ele confirmou o encontro ontem. Você tem certeza de que está no ponto certo?"
"Sim, terminal três, área de desembarque internacional. " olhei em volta, tentando encontrar qualquer detalhe fora do lugar. " Mas aqui só tem civis. Nenhum movimento suspeito."
Rebecca ficou em silêncio por alguns segundos, o que nunca era bom sinal.
"Isso n?o me cheira bem. " Disse enfim. " Pode ser que tenham interceptado ele. Ou pior, que ele tenha sido comprometido."
Suspirei, sentindo o peso da possibilidade.
"é o que eu imaginei. Vou tentar outra rota. A delegacia local talvez tenha alguma pista."
"Cuidado, Alex. Monterrey n?o é território seguro pra gente."
"Desde quando eu escolho o caminho mais seguro? " sorri de canto, tentando aliviar a tens?o.
"Só tenta n?o fazer uma Roma dois , tá? Ainda tenho relatórios seus atrasados pra revisar."
"Prometo que te deixo trabalho o bastante pra uma semana."
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Ela bufou do outro lado da linha, mas pude ouvir um leve riso escapar antes da liga??o cair.
Guardei o celular e caminhei em dire??o à saída. O sol mexicano me atingiu com for?a assim que atravessei as portas automáticas o ar quente, o cheiro de gasolina e comida de rua se misturando. Olhei o céu azul sem nuvens, ajeitei o terno e murmurei:
"Bem-vindo ao México, Alex. Lugar perfeito pra morrer ou resolver um mistério. Vamos ver qual vem primeiro."
Peguei um táxi e disse o endere?o da delegacia central. O motorista me lan?ou um olhar curioso pelo retrovisor sotaque britanico em Monterrey chama aten??o mas n?o falou nada. O carro se afastou do aeroporto; eu abri o arquivo de Ernesto Moreno no tablet e folheei as fotos: rostos borrados, nomes riscados, anota??es à margem.
" Ent?o você é investigador da OMCB? " o motorista finalmente perguntou, baixinho.
Assenti sem muita cerim?nia.
" Sim."
" E o que faz aqui no México? " continuou, curioso.
" é confidencial. Só me leva até a delegacia, por favor. " respondi.
O silêncio voltou até o carro entrar na área central da cidade. Paguei a corrida e desci. A fachada da delegacia era modesta; dentro, o calor se misturava com cheiro de limpeza e de tudo o que um lugar desses acumula: medo, esperan?a, burocracia. Na recep??o, m?es e pais se amontoavam em cadeiras; alguns choravam, outros murmuravam nomes como mantras. Posters com fotos de crian?as desaparecidas enchiam as paredes brancas, como se o prédio tentasse lembrar todo mundo do que n?o podia esquecer.
A recepcionista me olhou com a express?o monótona de quem já viu demais.
" O que o senhor deseja? " ela perguntou em espanhol, voz cansada.
Entreguei a minha identifica??o da OMCB. O selo de rank 2 metálico cantou no ar breve como prova.
" Preciso de acesso aos arquivos sobre desaparecimentos de crian?as do último mês. " falei, com a calma que sempre uso quando quero que levem a sério.
Ela analisou o crachá devagar, como quem pesa consequências.
" Foram 372 só no último mês. " respondeu, quase sem emo??o. As palavras caíram na minha garganta. Trezentos e setenta e dois. Números que deveriam doer, e doeram.
Nesse instante, uma mulher se agarrou à minha perna. Seu rosto estava molhado de lágrimas; o desespero falava mais alto que qualquer etiqueta.
" Você é um investigador, n?o é? " ela implorou em espanhol, voz trêmula. " Por favor… por favor, encontre meu filho."
Ela apertava a minha m?o como se aquilo fosse ancora. Descreveu: Andrés, olhos verdes, cabelo crespo. A imagem do menino formou-se rápida na minha cabe?a. Peguei o rosto dela com cuidado, como quem segura algo frágil.
" Eu vou encontrar o Andrés e vou trazê-lo de volta pra você. Eu prometo. " falei, sentindo a promessa pesar e, ao mesmo tempo, fortalecer algo dentro de mim.
" Obrigada… " ela murmurou, e por um momento a fé falou mais alto que o cansa?o em seu olhar.
Fui encaminhado para a sala de relatórios. Por um policial local camisa amarrotada, tranquilidade forjada por anos de turno abriu o acesso após algumas perguntas e verifica??o adicional do meu documento. Expliquei, de forma contida, que estava investigando desaparecimentos relacionados a grupos que poderiam ter liga??es com figuras políticas. Ele franziu o cenho, mas abriu o antigo computador da delegacia: máquina lenta, tela amarelada, atalhos antigos. Os arquivos estavam fragmentados em pastas que pareciam ter sido rearranjadas por m?os apressadas.
Passei horas lá: cruzando listas, comparando horários, lendo relatos amadores e mensagens apagadas. A pista que eu precisava veio de um email esquecido em uma pasta referência a uma base do cartel Los Olvidados, pouco mais de 25 km de Monterrey. Após a investiga??o do cartel decidi pesquisar sobre o meu informante no registro dele havia um endere?o: Calle Lázaro Cárdenas 478, Col. Obispado, Monterrey, Nuevo León, CP 64010.
Decidi ir até o informante a pé Nuevo León n?o era longe. A casa amarela saltou do mapa como um ponto minúsculo na rua: varanda estreita, dois andares, cortina marcada pelo tempo. Bati na porta duas, três vezes. Nada. A sensa??o de vazio foi rápida e pesada, como se o lugar tivesse prendido a respira??o.
Percebi a porta entreaberta e empurrei. Um golpe de ar frio me atingiu; ent?o o cheiro veio por completo ferro e pimenta, um cheiro de sangue que dominou tudo. Instinto me fez puxar a pistola do coldre. A arma parecia pequena na minha m?o, mas suficiente.
A sala estava torta em silêncio. Uma poltrona velha, a mesa de centro com copos virados, uma televis?o morta. No entanto, o foco foi imediato e cruel: o informante sentado na poltrona, a cabe?a arrancada numa curva grotesca um corte que parecia obra de lamina pesada, a pele e os cabelos manchando o tecido. N?o foi medonho; foi mensagem. Alguém queria que eu visse.
Antes que eu pudesse pensar, um som de madeira rangendo atrás de mim e uma lamina varreu o ar onde minha cabe?a estivera um segundo antes. Um fac?o passou a um palmo do meu rosto. Senti o vento da lamina como se tivesse cortado o som.
Um chute atingiu meu abd?men. Ar saiu dos pulm?es; bati de costas na mesa de centro e minha arma deslizou, sumindo por baixo do sofá. A vis?o turvou por um instante, as bordas do lugar tremendo. Levantei a m?o e vi o homem vindo em minha dire??o.
Ele devia ter mais de dois metros. Ombros largos, roupas t?o sujas que pareciam coladas à pele. Um saco de trigo amarrado sobre a cabe?a com cortes para os olhos . Cintos enrolavam os bra?os dele como tatuagens de couro pelo menos trinta. Empunhava o fac?o como se fosse extens?o do próprio punho.
Meu cérebro funcionou por instinto: nada era t?o simples quanto cortar e fugir. A casa era uma gaiola; o estilo deles era mostrar poder e medo. Agarrei o baralho no bolso do paletó. As cartas já tinham minha vida marcada: bordas amareladas, símbolos que queimavam sob a pele. Embaralhei com as m?os tremendo.
" Ahahah Parece que eu dei sorte."
Tirei uma carta. ás de Copas.
"Você está completamente fodido" uma aura imbuiu meu corpo.

