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Capítulo 16: O Nó Já Está Feito... Minha Amada

  Whack!

  Tack!

  Sons de madeira se chocando ecoavam pelos sal?o de treinamento da Cidadela. E entre a cacofonia de combate, suor e futuros hematomas, num canto mais isolado do local, Sorfeu treinava Micah no manejo da espada.

  Seus músculos desacostumados ainda queimavam dos exercícios matinais, mas Dennisorfeu pouco se importava.

  — Vamos! Ajeita essa postura, arruma os pés, Miquéias! — Provocou ele, seu avan?o sobre o recruta incansável. — Você acha que o inimigo vai ter intervalo pro lanche? Ha! Que piada!

  — Eu... Eu t? tentando— Argh!

  Micah caiu ao ch?o quando Sorfeu estocou seu est?mago. Ele gemia de dor, abra?ando a área atingida.

  — Morto.

  — Você poderia pegar mais leve com ele, né? — Comentou Lysa ao lado enquanto treinava seu arremesso com adagas.

  — Daqui a pouco ele vai ficar t?o dolorido que n?o vai conseguir nem sair da cama. — Concluiu ela, acertando três peda?os de madeira que Felipa jogou ao ar.

  O bardo suspirou, se apoiando na parede enquanto dava um gole de seu cantil.

  — Eu sei o que eu t? fazendo. Eu mesmo treinei o Gunther quando ele resolveu servir, lembra?

  — Sim, eu sei. Mesmo assim... n?o dá pra ser um pouco menos bruto? — Disse em um tom preocupado.

  Enquanto eles discutiam, Micah se levantou com muita dificuldade, sentando-se num banquinho enquanto suor pingava de sua testa. Ele olhou pro bra?o esquerdo, já havia feito quatro dias que ele era parte do Pelot?o de Despertos, e Sorfeu o deu uma bra?adeira de olho hoje de manh?, o acessório que diferencia soldados comuns e despertos em Luther. Micah se sentia parte de algo, e n?o tinha certeza do que fazer com esse sentimento.

  Parecia algo distante, alienígena até. Era o tipo de coisa que ele nunca acreditou que aconteceria com ele.

  Ent?o fechou os olhos por um momento, focando em recuperar seu f?lego. Até que ele sentiu algo estranho, como alguém lhe encarando.

  Ele virou a cabe?a pro lado e um homem robusto tirou os olhos dele no mesmo segundo.

  Era Bartkuma, treinando com sua espada.

  Micah franziu a testa.

  O homem havia desviado o olhar rápido demais.

  Ele ficou alguns segundos parado, observando de canto de olho. Bartkuma treinava sozinho, executando cortes precisos contra um boneco de madeira refor?ado. Cada golpe era idêntico ao anterior — mesma distancia, mesma for?a. A única diferen?a era a constante mudan?a de angulo, deixando uma barreira impenetrável de cortes à suas frente. N?o havia pressa. N?o havia hesita??o.

  Micah respirou fundo.

  “Ok. Paranoia. Treino pesado. Trauma recente. Tudo normal.”

  Ele desviou o olhar.

  Cinco segundos depois, sentiu de novo e virou a cabe?a.

  Bartkuma estava olhando.

  E dessa vez, n?o desviou.

  Os olhos cinza do homem estavam fixos nele, atentos demais, como quem observa uma rachadura se formando numa parede.

  Micah engoliu em seco.

  Bartkuma piscou.

  Ent?o voltou a golpear o boneco.

  Micah co?ou a nuca, confuso.

  — …Lysa? — murmurou, sem tirar o olho do outro Desperto.

  — Hm? — ela respondeu, concentrada em equilibrar uma adaga na ponta do dedo.

  — Aquele cara grand?o… ele tá me encarando ou eu t? ficando maluco?

  Lysandre seguiu o olhar dele.

  Bartkuma, naquele exato instante, estava claramente olhando para Micah.

  Sem express?o.

  Sem disfarce.

  — Ah. — ela disse, tranquila demais. — Ele faz isso às vezes.

  Micah piscou.

  — Faz isso como assim?

  — é tipo um gato olhando um inseto preso num copo. — Explicou, girando a adaga e guardando-a. — N?o é pessoal. Quer dizer… até é. Mas n?o no sentido ruim.

  — Isso n?o ajudou em nada.

  Bartkuma inclinou levemente a cabe?a.

  Micah sentiu um arrepio.

  — Ele… — Micah baixou a voz. — Ele sempre encara assim?

  — Só quando tá interessado. — Lysa sorriu de canto.

  — Interessado em quê?!

  — Em você, oras.

  Micah engasgou com o próprio ar.

  — EM MIM?! Olha eu n?o sou dessa laia n?o! Eu gosto de mulher!

  Lysa gargalhou que nem um cavalo, seus olhos lacrimejando de rir.

  — N?o... Hééé-há-há-há! N?o foi isso que quis dizer. Ele—

  Ela parou de repente, seu sorriso abaixando um pouco.

  Sorfeu parou de testar seu viol?o.

  Felipa, que até ent?o arremessava discos de madeira no ar para treino de rea??o, congelou no meio do movimento.

  — …O quê? — Micah repetiu, a voz mais fina do que gostaria.

  Bartkuma deu mais um golpe no boneco.

  Whack.

  A cabe?a de madeira se partiu ao meio.

  Ele largou a espada no suporte, limpou o suor do rosto com um pano e come?ou a caminhar na dire??o deles.

  Cada passo era pesado demais para ser ignorado.

  Micah entrou em panico silencioso.

  — Lysa, por favor me diz que isso n?o é o que eu t? pensando.

  — Depende do que você tá pensando. — ela respondeu, divertida demais.

  Bartkuma parou a poucos metros.

  Ficou ali, olhando.

  Micah levantou devagar.

  — E-eu… posso ajudar em alguma coisa?

  Silêncio.

  Bartkuma o analisava como um a?ougueiro analisa um corte raro.

  Sorfeu pigarreou.

  — Pitbull adestrado. — disse, sério. — Para de encarar o garoto. Tá assustando ele.

  O homem piscou, como se só agora tivesse percebido que estava sendo observado.

  — …Desculpe. — disse, com voz grave e baixa.

  Micah relaxou um pouco.

  — Tá tudo bem. Eu só—

  — Você morreu. — Bartkuma continuou.

  Micah travou.

  — …Sim.

  Bartkuma assentiu lentamente.

  — Interessante.

  Micah abriu a boca, fechou, abriu de novo.

  — Interessante como?

  Bartkuma pensou por um momento.

  — Ainda está inteiro.

  Silêncio absoluto.

  Felipa desviou o olhar.

  Sorfeu suspirou.

  Lysandre mordeu o lábio para n?o rir.

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  — Isso… isso é bom, né? — Micah arriscou.

  Bartkuma inclinou a cabe?a de novo.

  — Veremos.

  Ele ent?o se virou, voltou calmamente para seu lugar de treino e pegou a espada.

  Antes de atacar o boneco novamente, falou, como se comentasse sobre o clima:

  — Se come?ar a cair peda?o, me avise.

  Micah ficou parado, pálido.

  — …Ele acabou de dizer isso mesmo?

  — Relaxa. — Lysa deu um tapinha nas costas dele. — Se ele quisesse te matar, você já saberia.

  — ISSO N?O é CONFORTANTE!

  Sorfeu soltou uma risada curta.

  — Bem-vindo ao clube, Micah. — disse, voltando à postura de treino. — Agora levanta. Ainda n?o terminei de te matar hoje.

  Micah gemeu em protesto.

  Ao fundo, Bartkuma ergueu os olhos por um segundo.

  E sorriu.

  Muito pouco.

  Mas sorriu.

  Um tempo depois eles foram almo?ar, Micah n?o tinha marmita, e ele só recebia seu pagamento à partir da semana que vêm.

  Felizmente Sorfeu pensou nisso e trouxe um sanduíche extra.

  Enquanto comiam do lado de fora, sentados nos degraus da Cidadela, Thona e Asáimon apareceram atrás deles.

  — Voltamos. — Disse Asáimon, agachando-se e segurando o ombro dos amigos. — Quem é que vai subir agora?

  — Mmhh! Bamo’ decidir no dois ou um! — Respondeu Lysandre, sua voz abafada por peda?os de salsicha.

  Sorfeu olhou para ela ent?o pro alto, comprimindo os lábios em um arco de dúvida.

  — Pra mim parece bom.

  Felipa suspirou, ela estava mais pensativa do que o normal hoje.

  Os cinco se juntaram em um círculo.

  — Dois ou um! — Disseram em uníssono.

  A maioria foi dois, Lysa foi eliminada.

  Ela fechou a cara, saindo do círculo.

  — Dois ou um!

  A maioria foi um, Micah foi eliminado.

  — Tsk...

  Sorfeu deu um sorriso debochado pra Lysa... e ele recebeu um dedo do meio em resposta.

  — Tá, tá bom, agora v?o logo antes que o Reblis perceba que n?o tem ninguém lá encima.

  A dupla subiu até o segundo andar, eles rondaram por um tempo pelos corredores luxuosos, passando por portas que levavam à galerias de arte, salas de música, apartamentos para hóspedes e até mesmo uma estufa.

  Quando passaram pela grande varanda que dava uma vista incrível do lago e a cidade, Lysa parou, observando o horizonte.

  Micah se juntou a ela, apoiando-se sobre o parapeito.

  — O que você quis dizer naquele dia? Quando me falou que morri “duas vezes”? — Perguntou ele, aproveitando o momento quieto.

  Lysandre olhou pra ele de canto.

  — Ora, eu quis dizer exatamente isso. Minha Imagem permite que eu veja rastros, tipo quando você vê pegadas no ch?o e reconhece de que animal é. E eu vi a morte passando duas vezes em você.

  — Mas... eu só morri uma vez. — Micah olhou pra ela, meio confuso, meio assustado.

  Ela deu de ombros, se afastando do parapeito.

  — Os rastros às vezes n?o s?o t?o claros assim. Você pode ter simplesmente experenciado a morte duas vezes. Como a morte de alguém próximo.

  Micah se lembrou de algo. N?o com luto. Mas culpa, um ran?o profundo de si mesmo.

  Ele sentiu uma m?o sobre o seu ombro, o acordando antes que aquele sensa??o se aprofunda-se.

  — Vamos, nosso turno ainda n?o acabou. — Falou com um sorriso pequeno demais. Algo que n?o combinava com Lysandre.

  ...

  Enquanto isso, no térreo, Felipa treinava artes marciais com Asáimon.

  Seus golpes eram precisos, rápidos, feitos para finalizar, n?o prolongar a luta. No entanto, resistência n?o era um de seus fortes.

  — Pausa! — Exclamou ela, fazendo o gesto combinado.

  Asáimon suspendeu seu chute no meio do ar, parando alguns centímetros do ombro dela.

  — Preciso usar o banheiro.

  Felipa saiu do sal?o sem olhar para trás.

  O corredor do térreo era mais estreito do que os pátios superiores, com teto baixo e paredes de pedra antiga que ainda carregavam marcas de reformas malfeitas. O ar ali era mais frio, e o cheiro metálico do treino — suor, couro, pó — demorava a dissipar.

  Ela caminhava rápido demais para alguém que “só precisava ir ao banheiro”.

  Asáimon ficou parado por um segundo a mais do que o necessário, ainda com a perna suspensa, sentindo o próprio equilíbrio reclamar da interrup??o abrupta. Baixou o pé devagar, cruzou os bra?os e observou a dire??o por onde Felipa havia sumido.

  Ela n?o costumava pedir pausa. E quando pedia, n?o saía assim.

  — Estranho… — murmurou para si mesmo.

  Sem chamar aten??o, amarrou a parte de cima do seu traje e saiu do sal?o alguns instantes depois, mantendo distancia suficiente para n?o ser notado — ou, ao menos, para parecer casual.

  Felipa dobrou à esquerda, depois à direita.

  N?o foi ao banheiro.

  O ritmo dos passos dela era irregular: dois rápidos, um mais lento. Como se estivesse contando. Ou segurando a respira??o sem perceber.

  Asáimon reconheceu aquele padr?o. Gente prestes a fazer algo que n?o devia.

  Ela subiu um lance curto de escadas e parou diante de uma porta discreta, sem bras?o, sem guarda permanente: o c?modo particular do escritório de vigília. O lugar onde Reblis sempre passa pra tomar o seu café da tarde à sós.

  Felipa ergueu a m?o. Hesitou.

  Os dedos enluvados tremiam levemente.

  Ela fechou a m?o, bateu duas vezes.

  — Entre. — A voz de Reblis veio quase imediata.

  A porta se abriu, e Felipa entrou rápido demais para parecer tranquila. Asáimon parou no meio da escada, encostando-se na parede oposta, fingindo ajustar a faixa do bra?o enquanto escutava.

  — Capit?o. — disse Felipa, num tom respeitoso, mas tenso. — Preciso falar com o senhor. A sós.

  Reblis ergueu os olhos da janela, pondo sua xícara sobre a mesa. Demorou meio segundo a mais do que o normal para responder.

  — Sobre o quê?

  — Sobre… uma testemunha. — Ela engoliu seco. — Uma informa??o que n?o passou pelos canais oficiais.

  Silêncio.

  Asáimon sentiu um leve arrepio subir pelo pesco?o. Testemunha. N?o relatório. N?o suspeita. Testemunha.

  — Feche a porta. — disse Reblis, por fim.

  O clique da porta ecoou mais alto do que deveria no corredor.

  Asáimon se afastou um pouco, mas n?o foi embora. Apoiou o ombro na pedra fria, olhando para o vazio como quem n?o está ouvindo — e ouvindo tudo.

  Ele usou sua Imagem para repetir as ondas sonoras através das paredes. Focando em manter o feiti?o.

  Do outro lado da porta, Felipa respirou fundo antes de continuar.

  — O Gunther… — Come?ou, e a pausa foi quase imperceptível. — Disse que viu o Duque Wanderson conversando com um representante rebelde. N?o um agitador comum. Mas o próprio Danton Marat.

  O silêncio que se seguiu n?o foi vazio. Foi pesado.

  — Quando? — perguntou Reblis, com a voz controlada demais.

  — Três dias atrás. No segundo andar da Cidadela. Segundo ele, foi rápido. Discreto. Mas… claro o suficiente. Ele... — Ela hesitou por um instante, como se considerasse omitir a informa??o. — Ele também disse que ouviu algo sobre as três fac??es rebeldes terem juntado for?as.

  Os olhos de Asáimon arregalaram por um instante.

  — E por que isso está chegando a mim agora?

  Felipa desviou o olhar. Por um instante, Asáimon teve a impress?o de que ela ia recuar.

  — Porque… — ela apertou as luvas com for?a. — Porque ele me pediu para n?o contar. Disse que era perigoso. Disse que n?o tinha certeza absoluta.

  — E você achou que tinha. — concluiu Reblis.

  — Eu achei que… — Felipa parou. — Eu achei que, se fosse verdade, o silêncio seria pior do que o erro.

  Outra pausa. Dessa vez, mais longa.

  Asáimon sentiu algo se encaixar — n?o uma certeza, mas uma dire??o. Felipa n?o estava agindo como alguém que só repassa informa??o. Ela estava… pagando um pre?o.

  — Você confia nele? — perguntou Reblis.

  Felipa demorou a responder.

  — Eu… quero confiar. — disse por fim. — Mas naquele dia ele mentiu para o próprio irm?o. E isso me fez pensar que talvez n?o fosse a única coisa que ele estivesse escondendo.

  Do lado de fora, Asáimon fechou os olhos por um segundo.

  Ent?o é isso. N?o é só política. é pessoal.

  — Muito bem. — disse Reblis. — Isso n?o sai desta sala. Ainda. Mas eu vou verificar. E você…

  Ele interrompeu a própria frase.

  — Você fez o certo ao vir aqui. — concluiu, num tom que n?o admitia discuss?o. — Mas saiba que, a partir de agora, você também está dentro disso.

  Felipa assentiu, tensa.

  — Eu sei.

  A porta se abriu alguns segundos depois. Felipa saiu com o mesmo passo rápido — mas o rosto estava diferente. Mais pálido. Mais fechado.

  Ela quase trombou com Asáimon.

  — Ah— — parou, surpresa.

  — Esqueceu o caminho do banheiro? — ele perguntou, num tom leve demais para ser inocente.

  Felipa sustentou o olhar por um segundo. Depois desviou.

  — Só precisava de ar.

  Asáimon inclinou a cabe?a, observando-a se afastar pelo corredor.

  Ela estava tremendo. N?o de cansa?o.

  — Certo… — murmurou. — Muito interessante.

  ...

  Vozes e música distante ecoavam através dos corredores superiores da Cidadela. E quanto mais Micah e Lysa se aproximavam do Sal?o Nobre, mais o som se intensificava.

  Escravos iam e vinham carregando caixas de vinho, bandejas de prataria, tecidos finos e arranjos florais ainda por montar.

  — Tá mais cheio que o normal. — Micah comentou, desviando de um criado apressado.

  — Convidados. — respondeu Lysandre. — Gente que veio de longe pro casamento. O Duque n?o ia deixar esse povo jogado em estalagem barata.

  O corredor se abriu para o Sal?o Nobre.

  O lugar estava irreconhecível.

  Tape?arias novas cobriam as paredes de pedra, exibindo bras?es antigos de Luther e estandartes cerimoniais. Candelabros ainda apagados pendiam do teto alto, e músicos afinavam instrumentos num canto, testando acordes baixos que ecoavam pelo espa?o.

  Alguns nobres já circulavam pelo sal?o, acompanhados de assessores, cochichando entre ta?as de vinho. Outros observavam tudo com aquele ar crítico de quem mede poder pelo luxo alheio.

  Micah sentiu um aperto estranho no est?mago.

  — Eu… n?o devia estar aqui, né? — murmurou.

  — Relaxa. — Lysandre respondeu. — Enquanto você parecer perdido o suficiente, ninguém repara.

  Eles caminharam pela lateral do sal?o, tentando passar despercebidos.

  Foi ent?o que Micah ouviu.

  — …dizem que o Duque anda distraído demais ultimamente.

  — Distraído? Eu diria imprudente.

  — Shhh. N?o aqui.

  Micah diminuiu o passo, fingindo interesse em uma estátua.

  — Ouvi dizer que ele anda conversando com gente… inconveniente.

  — Rebeldes?

  — N?o ousaria dizer isso em voz alta.

  Uma risada baixa.

  — Com um casamento desses à porta? Seria suicídio político.

  Lysandre n?o virou a cabe?a. Mas Micah percebeu a mudan?a no corpo dela — aten??o afiada, leitura de ambiente. O rastro come?ando a se formar.

  — Isso… — Micah cochichou. — Isso é normal?

  — N?o. — ela respondeu, seca. — Rumor plantado cedo demais sempre tem dedo por trás.

  Eles avan?aram mais alguns passos.

  Outro grupo de nobres, mais afastado.

  — Wanderson sempre foi um flaneur disfar?ado de governante.

  — Um homem que gosta de observar mais do que agir.

  — Pois talvez tenha observado o lado errado da cidade.

  Micah sentiu um arrepio.

  — Lysa…

  — Eu sei. — ela interrompeu. — E isso vai piorar.

  E ent?o Micah viu.

  Encostada a uma coluna de mármore, élise falava com Rebbeka, irm? de Reblis e futura Duquesa. Um gar?om havia passado para oferecer à elas ta?as de vinho. élise girava a ta?a um pouco, saboreando todos os aspectos do álcool, mas Rebbeka mal prestava aten??o em sua bebida. Sua vis?o estava colada em élise de um jeito estranho, enquanto ela mexia em seu colar de esmeraldas inquietamente.

  Elas estavam próximas de mais, como se cochichassem algo, mas longe o suficiente para n?o levantarem suspeitas.

  — O que ela faz aqui? — Perguntou Micah, olhando para a herdeira.

  — A de vermelho? Ela n?o é nobre, mas a família dela tem uma história com essa cidade. Ent?o é meio esperado que ela seja convidada à festas assim. — Respondeu ela, pegando um petisco de presunto sutilmente.

  — Sinceramente eu acho ela meio esnobe. — Continuou comentando enquanto mastigava. — Mas quem sou eu pra julgar, né?

  Como se o próprio sal?o tivesse ouvido o presságio, um burburinho mais forte come?ou perto da entrada.

  As portas principais se abriram.

  O Capit?o Reblis entrou no Sal?o Nobre com o passo firme de quem n?o pertence à decora??o, mas manda nela.

  O uniforme estava impecável, a capa escura contrastando com os tecidos claros da festa iminente. Dois guardas vinham logo atrás, mas Reblis fez um gesto curto, dispensando-os antes mesmo de cruzar totalmente a porta.

  O sal?o reagiu de imediato.

  Conversas diminuíram. Alguns nobres se endireitaram. Outros sorriram com uma cordialidade ensaiada demais.

  Micah sentiu o corpo travar.

  — Ah n?o… — murmurou.

  Reblis os viu quase imediatamente.

  N?o por acaso — ele sempre via.

  — Desperto Micah. — disse de forma mais formal que o comum, aproximando-se. — Investigadora Tabaco.

  — Capit?o. — Lysandre respondeu, inclinando levemente a cabe?a.

  Micah tentou imitá-la, um segundo atrasado.

  — N?o sabia que tinham sido destacados para cá. — continuou Reblis, o olhar percorrendo o sal?o por cima deles. — O turno de vocês n?o era externo?

  — Mudan?a de ordem. — respondeu Lysandre. — Supervis?o interna enquanto os convidados chegam.

  Reblis assentiu devagar.

  — Faz sentido. — disse. — Lugares cheios s?o… férteis.

  O olhar dele pousou por um instante mais longo em Micah.

  — Está se adaptando?

  — E-eu acho que sim, senhor.

  — ótimo. — respondeu Reblis. — Ent?o preste aten??o.

  Ele se inclinou um pouco, baixando o tom.

  — Tenho motivos para suspeitar que há um traidor entre os nobres.

  Lysandre estreitou os olhos.

  — Quer que a gente observe alguém específico?

  — Quero que observem todo mundo. Especialmente quem parece estar só aproveitando a festa.

  Ele se endireitou.

  — Ah. E Tabaco?

  — Sim?

  — Se seus rastros come?arem a ficar… estranhos demais, me avise antes de tirar conclus?es.

  Ela sustentou o olhar dele por um segundo.

  — Claro, Capit?o.

  Reblis assentiu e seguiu adiante pelo sal?o, sendo imediatamente cercado por cumprimentos e falsos sorrisos.

  Wanderson já descia do mezanino com os bra?os abertos, pronto para cumprimenta-lo

  Micah soltou o ar que nem percebeu que estava segurando.

  Ele olhou de novo ao redor.

  O vinho, as risadas, os músicos afinando, os nobres cochichando.

  Faltava três dias para o casamento

  ...

  Algumas horas depois do sol se p?r, no Port?o Norte, dois guardas estavam de guarda.

  — Cara, eu vou dar uma mijada. Já volto. — Disse um deles, bocejando.

  O homem foi até um arbusto seco, segurando a lan?a com o ombro enquanto se aliviava.

  Ele limpou a garganta, levantando as cal?as, até que...

  — N?o se mova. — Disse uma mulher atrás dele, segurando uma adaga contra seu pesco?o. — Solte a lan?a. Agora.

  Ele obedeceu, mortificado.

  — Onde está o Alquimista Real?

  — E-Eu n?o sei—

  Ela apertou a lamina contra a jugular, tirando um fio de sangue.

  — Você mora na Rua dos Crentes, n?o é? Número 262. Casado, três filhos e outra à caminho. Quer tentar mentir pra mim de novo?

  Ele empalideceu.

  — N-n?o... Por favor, eles s?o tudo que eu tenho—

  — N?o vou perguntar de novo. Onde está Ezra?

  — E-ele foi à Zênite três dias atrás atender à Conferência. é à sudoeste daqui, eu acho.

  Houve um golpe atrás de sua cabe?a, e o guarda desmaiou.

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