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Capítulo 2 - garras de ferro

  Arkin fechou os olhos por um instante. Depois embainhou a espada novamente, matriculou-a cuidadosamente dentro do manto branco e deixou o pacote sobre a cama.

  Seus olhos se voltaram para a parede oposta.

  Lá, em um suporte simples de madeira, repousava outra espada.

  Uma lamina mais antiga, mais gasta. O fio estava ligeiramente irregular em alguns pontos, marcas de incontáveis treinos e sparrings brutais. N?o havia bras?o nenhum. Apenas o metal honesto de quem sobreviveu ao tempo.

  Arkin a retirou do suporte e desembainhou-a com um som limpo e familiar.

  — Olá, velha amiga…

  Um leve sorriso, o primeiro genuíno em horas, tocou seus lábios.

  “Está um pouco velha… mas deve bastar.”

  Pendurou a bainha no cinto, ajustou-a na cintura. Caminhou até a janela aberta. O vento do início da noite entrou, bagun?ando seus cabelos negros.

  Subiu no parapeito. Abriu os bra?os. Sentiu o ar frio encher os pulm?es.

  E ent?o deu um passo para o vazio.

  Antes que o ch?o pudesse alcan?á-lo, um brilho roxo envolveu seu corpo, um teleporte curto, preciso, treinado em noites secretas de prática. Ele reapareceu no telhado de uma casa nobre a vários metros abaixo, aterrissando com a leveza de um gato.

  Parou por um segundo. Virou o rosto na dire??o do castelo.

  As torres brancas ainda reluziam sob os últimos raios do sol poente. Bandeiras com o drag?o tremulavam ao vento.

  Arkin deu as costas para elas.

  E come?ou a correr.

  N?o como o cavaleiro impecável que saltava telhados em miss?es oficiais.

  Correu como alguém que acabara de ser libertado de correntes invisíveis.

  O vento batia em seu rosto. A capa cinza esvoa?ava atrás dele como asas quebradas. A espada antiga balan?ava ritmada contra sua coxa.

  Pela primeira vez em anos, ele n?o sabia para onde ia.

  E isso… era libertador.

  A noite já havia engolido o céu por completo quando Arkin parou sobre as muralhas externas da capital.

  O vento frio da floresta circundante soprava contra seu rosto, carregando o cheiro de pinheiros e terra úmida. Ele se agachou na borda de pedra, o capuz da capa cinza cobrindo parcialmente os cabelos negros, e observou para baixo.

  Lá estavam eles: os soldados da guarda noturna. Seus antigos companheiros.

  Um deles, o jovem de barba rala que sempre reclamava do frio, estava encostado na ameia, a lan?a frouxa nas m?os, os olhos pesados de sono. Cochilava em pé, o queixo tombando ritmadamente contra o peito. O outro, mais velho e experiente, mantinha-se ereto, olhos fixos na escurid?o além do fosso, a m?o firme no cabo da espada.

  Arkin sentiu um aperto no peito.

  Uma lembran?a veio sem aviso, clara como se tivesse acontecido ontem.

  “Descansem e troquem de turno direito”, dissera ele a eles meses atrás, durante uma vigília longa demais. “Se ficarem os dois acordados a noite inteira, v?o acabar caindo de sono juntos. Um descansa, o outro vigia. Assim vocês s?o melhores. Assim protegem a cidade de verdade.”

  Eles haviam rido, agradecido, chamado-o de “o capit?o que cuida até dos cochilos alheios”.

  Agora, vendo o jovem cochilando exatamente como Arkin ensinara, o peso daquela memória o atingiu como uma lamina cega.

  Ele suspirou.

  Um suspiro longo, triste, carregado de uma melancolia que n?o sabia que ainda podia sentir.

  N?o havia raiva. N?o mais. Apenas um vazio quieto, como se algo dentro dele tivesse sido arrancado e levado pelo vento.

  Sem fazer barulho, Arkin se levantou. Deu um passo para o vazio.

  Saltou.

  O ar o envolveu por uma fra??o de segundo. Antes que o soldado alerta pudesse virar a cabe?a para investigar o leve farfalhar, Arkin já havia desaparecido num lampejo roxo sutil, um teleporte curto, quase imperceptível na escurid?o.

  Reapareceu no galho grosso de um carvalho antigo, já dentro da linha das árvores da floresta que margeava a capital. O impacto foi absorvido pelos músculos treinados; ele mal balan?ou.

  De onde estava, ergueu os olhos uma última vez.

  As muralhas brancas reluziam fracamente sob o luar. As torres do castelo se erguiam ao fundo, silhuetas imponentes contra o céu estrelado. Bandeiras com o drag?o tremulavam pregui?osamente, como se nada tivesse mudado.

  Mas tudo havia mudado.

  Arkin sustentou o olhar por mais alguns segundos. Memorizou cada detalhe, n?o por saudade, mas por encerramento. Por saber que talvez nunca mais voltasse a ver aquilo como “lar”.

  Ent?o virou as costas.

  Deu o primeiro salto.

  Galho após galho, árvore após árvore, ele se moveu pela copa da floresta com a fluidez de quem nascera para aquilo. A espada antiga batia ritmada contra sua coxa, um companheiro silencioso e fiel. O vento da noite sussurrava entre as folhas, abafando o som de seus passos leves.

  N?o havia destino definido. N?o havia plano.

  Apenas a estrada adiante, ou melhor, as copas adiante e a sensa??o estranha, quase dolorosa, de liberdade.

  Pela primeira vez em anos, Arkin n?o carregava o peso de um juramento nas costas.

  E isso, de alguma forma, doía mais do que qualquer ferida de batalha.

  [...]

  O sol já escalava o céu, filtrando-se entre as copas densas da floresta em feixes dourados. Arkin havia descido das árvores horas antes e agora seguia pelo ch?o irregular, pisando em folhas secas e raízes expostas. Pela posi??o do sol, deviam ser quase nove da manh?. Desde que entrara na floresta, n?o parara nem por um instante nem para beber, nem para descansar. N?o podia. Se os soldados do castelo já tivessem notado sua ausência, uma patrulha estaria em seu encal?o. Ou pior: enviados pessoais de Seraphine.

  Ele acelerou o passo, o cora??o batendo firme, mas controlado.

  Ent?o ouviu.

  Um estalo sutil à direita, galhos se movendo contra o vento.

  Arkin congelou.

  Uma flecha cortou o ar e cravou-se no ch?o exatamente à sua frente, a haste ainda tremendo.

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  Ele ergueu os olhos violetas, varrendo a vegeta??o densa. Puxou a espada antiga da bainha com um movimento fluido. O metal gasto rangeu levemente ao sair.

  Outra flecha veio da esquerda.

  Arkin girou o corpo num reflexo treinado. A lamina encontrou a flecha no meio do voo; o impacto partiu a haste em dois peda?os perfeitos que caíram inertes na terra.

  Ele baixou a guarda por uma fra??o de segundo, olhando os fragmentos.

  “Soldados? Já me acharam?”

  Antes que pudesse responder à própria pergunta, uma sombra pesada desceu de cima.

  Um homem colossal, quase 1,90 m de pura massa muscular, saltou de um galho alto, machado de duas m?os erguido acima da cabe?a. O ar assobiou com a descida.

  Arkin rolou para o lado no último instante. O machado colidiu com o ch?o, abrindo uma cratera rasa e fazendo a terra tremer. Poeira e folhas subiram em nuvem.

  Arkin se levantou num pulo, espada apontada para o grandalh?o. O homem n?o avan?ou de novo. Apenas endireitou o corpo, baixou o machado e… sorriu. Um sorriso largo, quase amigável, que n?o combinava com o tamanho da arma nem com a cicatriz que cortava sua sobrancelha esquerda.

  — Vejam só… — veio uma voz feminina, suave e melodiosa, mas com um tom afiado que cortava como vidro. — Se n?o é o guardi?o da família real em pessoa.

  Arkin sentiu um arrepio familiar percorrer a espinha.

  Ele conhecia aquela voz. Ouvira-a apenas uma vez, anos atrás, durante uma noite de caos no palácio. Uma voz bela demais para pertencer a quem pertencia.

  — Eirwen — disse ele, baixo.

  — Há quanto tempo, guardi?o? — A voz soou novamente, agora mais próxima. — O que faz t?o longe da sua dona, cachorrinho?

  Arkin moveu o olhar para cima.

  Sobre um galho grosso, agachada com a gra?a de um felino, estava ela.

  Capa e capuz azul-escuro cobriam o seu corpo. Uma aljava cheia de flechas nas costas, arco longo já na m?o, corda ainda vibrando do último disparo. Ela desceu do galho com um salto leve e aterrissou a poucos metros dele, sem fazer barulho.

  Puxou o capuz para trás.

  Cabelos brancos como neve recém-caída caíram em ondas suaves até os ombros. Olhos prateados, como a prata mais pura que existia, fixaram-se nos dele. Pele imaculada, sem uma única cicatriz visível, o que era quase absurdo para uma mercenária de sua reputa??o.

  Arkin piscou uma vez. Por um instante, a compara??o veio involuntária: ela é mais linda que Seraphine. Uma verdade que ele nunca admitira em voz alta, mas que agora batia como um soco.

  — Ent?o ainda se lembra da gente — disse Eirwen, com um leve sorriso curvando os lábios.

  — Por que eu n?o lembraria? — respondeu Arkin, a voz firme apesar do cansa?o. — Vocês foram contratados para matar a família real… e fracassaram.

  — Gra?as a você, Arkin.

  — Só estava fazendo o meu trabalho — murmurou Arkin, dando um passo para o lado, pronto para continuar seu caminho.

  Mas o grandalh?o, Darius, moveu-se com uma velocidade surpreendente para seu tamanho e plantou-se à frente dele, bloqueando a passagem sem agressividade, apenas firmeza.

  — Você ainda n?o me respondeu, Arkin Graves — disse Eirwen, a voz calma, mas insistente.

  Arkin parou. Seus olhos violeta se ergueram para encontrar os dela.

  — E nem vai ter resposta, Eirwen.

  Antes que ela pudesse retrucar, uma voz masculina ecoou de longe, cortando o ar tenso da clareira.

  — Pessoal!

  Todos viraram o rosto na dire??o do som.

  Um homem pardo de pele morena e cabelos pretos lisos com olhos prateados surgiu saltando entre as árvores. Vestia roupas negras justas, com uma abertura ampla no ombro esquerdo expondo músculos definidos, uma ombreira de metal no direito e um capuz cinza jogado para trás. Aterrissou ao lado da garota de capa vermelha com a gra?a de quem nascera nas sombras.

  — Vocês n?o sabem o que aconteceu… — disse ele, ofegante, mas com um brilho de excita??o nos olhos. — O guardi?o da família real está desaparecido.

  O silêncio caiu como uma lamina.

  Eirwen, Darius, Eirdis e Elara moveram o olhar lentamente para Arkin.

  Ele suspirou, balan?ou a cabe?a e passou a m?o pelos cabelos negros. Queria manter segredo o máximo possível, mas o destino ou Skyler tinha outros planos.

  Skyler ergueu o dedo indicador na dire??o dele, os olhos arregalados.

  — Ah…!

  — Vai contar agora, depois que o Skyler já falou? — Eirwen cruzou os bra?os, um sorriso ir?nico nos lábios.

  Arkin sustentou o olhar dela por um segundo antes de responder.

  — Só se me contarem o que est?o fazendo t?o próximos da capital.

  Eirwen inclinou a cabe?a.

  — Estamos em um contrato. Alguns homens de um bando chamado Ossos do Dem?nio roubaram uma carga de remédios valiosos. O dono original nos contratou para roubar a carro?a e devolvê-la… intacta.

  — Roubar? — Arkin estreitou os olhos violeta.

  — Tá bom, o certo é recuperar — corrigiu Eirwen, apontando o dedo para ele. — Sua vez.

  Arkin hesitou. Olhou de relance para trás, na dire??o distante da capital, agora invisível entre as árvores e depois de volta para Eirwen.

  — Eu… desertei de Rothnia.

  Um silêncio pesado se instalou.

  Eirwen o mediu de cima a baixo, notando novamente a capa cinza surrada, a espada gasta, a ausência total de qualquer símbolo real.

  — Oh? O cachorrinho leal da princesa simplesmente abandonou tudo? — Ela deu um passo à frente. — Estava me perguntando por que n?o estava com aquela armadura branca reluzente… e por que está carregando uma espada com a lamina completamente arruinada.

  Arkin baixou o olhar por um instante. Quando ergueu novamente, havia algo cru em seus olhos violeta.

  — Eu estava sendo usado como arma esse tempo todo. A princesa Seraphine… aquela promessa era uma mentira.

  Ele se virou, dando as costas ao grupo.

  — Agora que sabem, já posso seguir meu caminho? N?o vou interromper a miss?o de vocês.

  — Espere — disse Eirwen, a voz firme, mas sem ordem. Apenas convite.

  Arkin congelou no meio do passo.

  — Tem algum lugar em mente para ir?

  Ele n?o respondeu de imediato. A verdade era que n?o. Fugira sem plano, sem destino. Apenas para longe.

  Virou-se devagar.

  Eirwen estendeu a m?o direita na dire??o dele, palma aberta.

  — Tem uma vaga nas Garras de Ferro — disse ela. — Sempre andamos em dupla desde que criei o bando. Eu… n?o tenho uma dupla.

  Arkin fitou a m?o estendida. Seus olhos violeta piscaram.

  — Eu n?o quero ser usado como uma arma de novo, Eirwen.

  — N?o estou oferecendo para ser uma arma, Arkin. — Ela deu mais um passo, diminuindo a distancia. — Estou oferecendo liberdade. N?o é uma arma se você recebe pagamento para realizar miss?es. Nós ajudamos uns aos outros. Por isso andamos em dupla.

  Ele em silêncio.

  Eirwen contínua, a voz baixa e direta.

  — N?o estou vendo uma arma, Arkin. Estou vendo um homem que se cansou de ser usado e quer viver livre. Sem princesas pensando em você. Sem ordens cegas. Você pode recusar um contrato. Pode ir quando quiser. Ninguém aqui pertence a ninguém. Mas você n?o tem pra onde ir. Estou oferecendo um lugar conosco.

  Arkin sustentou o olhar dela por longos segundos.

  Ent?o, devagar, estenda a m?o e segurou a dela.

  O aperto foi firme. Decisivo.

  — Eu aceito, Eirwen.

  Um sorriso genuíno, raro e breve, surgido nos lábios dela.

  — Bem-vindo, Arkin.

  A mulher de capa vermelha retira o capuz para trás, revelando cabelos ruivos longos que caíram como fogo líquido. Seus olhos dourados brilhavam com divers?o.

  — Eu me chamo Eirdis. Sou parceira da Skyler.

  A de capa branca sólida o exemplo, revelando cabelos castanhos presos em uma tran?a prática.

  — Eu sou Elara — disse ela com voz suave. — A maga do bando. A parceria de Darius.

  O grandalh?o casual o machado em sauda??o casual, sorrindo abertamente.

  — Eu sou Darius. é bom tê-lo ao nosso lado, Sir Arkin.

  — Sir Arkin está morto — corrigiu ele, a voz baixa, mas firme. — Me chame apenas de Arkin.

  Skyler deu um passo à frente e, sem cerim?nia, passou o bra?o ao redor do pesco?o de Arkin num abra?o de lado, rindo.

  - Eu sou Skyler. Espero que possa confiar em nós.

  Arkin n?o se atrasou. Apenas olhei de lado para ele.

  — Digo o mesmo.

  Eirwen estendeu a m?o, cortando o momento.

  — Voltem para suas posi??es. A carro?a já deve estar vindo.

  O grupo se dispersou rapidamente, cada uma assumindo posi??o entre as árvores. Eirwen ficou ao lado de Arkin por mais um segundo, os olhos prateados fixos nos dele.

  — Bem-vindo às Garras de Ferro, Arkin Graves.

  Arkin deu um leve aceno com a cabe?a e se afastou de Eirwen sem dizer mais nada. Movendo-se com o silêncio de quem já passou anos treinando para n?o ser visto, ele se agachou atrás de um arbusto denso de folhas largas, a m?o firme no cabo da espada gasta. A lamina, mesmo desgastada, ainda era uma extens?o do seu bra?o.

  Eirwen se moveu em silêncio e se posicionou ao lado dele. Sem uma palavra, extraordinária o arco já carregado, a flecha apontada para a estrada de terra batida que cortava a floresta. Seus olhos prateados estavam fixos no horizonte, concentrados.

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